Salesforce transforma o Slackbot em agente de IA capaz de agir sozinho na empresa
A nova versão do assistente do Slack, já disponível, busca dados internos, rascunha documentos e agenda reuniões — e coloca a Salesforce em rota de colisão com Microsoft e Google.

A Salesforce lançou nesta terça-feira uma versão completamente reconstruída do Slackbot, o assistente que vive dentro do Slack (a plataforma de mensagens corporativas da empresa). O que antes era uma ferramenta simples de notificações agora funciona como um agente de IA (um software que age sozinho em nome do usuário): ele vasculha dados da empresa, escreve documentos e até agenda reuniões. A novidade chega para clientes dos planos Business+ e Enterprise+ e representa a jogada mais agressiva da Salesforce para colocar o Slack no centro da chamada "IA agêntica" — a ideia de que programas inteligentes vão trabalhar ao lado de humanos para resolver tarefas complexas.
Parker Harris, cofundador da Salesforce e CTO do Slack, foi direto ao comparar as duas gerações do produto: "O Slackbot antigo era um triciclo; o novo é uma Porsche", disse em entrevista ao VentureBeat. A primeira versão fazia tarefas algorítmicas básicas, como lembrar de adicionar colegas a documentos ou sugerir arquivamento de canais. Já a nova roda sobre um LLM (large language model, os modelos de linguagem que alimentam ChatGPT e similares) e um sistema robusto de busca, capaz de acessar registros do Salesforce, arquivos do Google Drive, calendários e anos de conversas no Slack. Por enquanto, o Slackbot usa o Claude, da Anthropic (a única fornecedora que oferecia um modelo compatível com a certificação FedRAMP Moderate, exigida para atender clientes do governo americano), mas Harris confirmou que este ano chegarão outras opções, como o Gemini do Google.
Internamente, os resultados impressionaram. Dos 80 mil funcionários da Salesforce, dois terços já experimentaram o novo Slackbot — a taxa de satisfação bateu 96%, a mais alta de qualquer recurso de IA que o Slack já lançou, e quem usa regularmente relata economizar entre duas e 20 horas por semana. A adoção foi orgânica: em cinco dias, os próprios funcionários criaram um Canvas (o formato de documento colaborativo do Slack) com "prompts roubáveis" que já reúne mais de 250 ideias de como usar o assistente. Entre os clientes-piloto, a Beast Industries (empresa do youtuber MrBeast) viu funcionários economizarem no mínimo 90 minutos por dia; o líder de TI da companhia destacou que a revisão de segurança foi "uma das mais rápidas" porque o Slackbot acessa apenas informações que cada usuário já tem permissão para ver.
A briga agora é direta com a Microsoft, dona do Copilot (integrado ao Teams e ao pacote Office 365), e o Google, que está enfiando o Gemini por todo o Workspace. A aposta da Salesforce é que o Slackbot leva vantagem porque já está dentro da ferramenta onde milhões de pessoas trabalham o dia inteiro, sem exigir configuração nem treinamento — ele vai ficando mais esperto conforme você usa o Slack. Harris descreve o Slackbot como um "super agente", uma espécie de hub central que no futuro vai coordenar outros agentes de IA espalhados pela empresa (a Anthropic, a OpenAI e o Google já construíram agentes para rodar dentro do Slack). Mas ele fez questão de pisar no freio: "Ainda estamos no mundo de um agente por vez. Coordenar mil agentes ao mesmo tempo ainda é irrealista".
O Slackbot não custa nada a mais para quem já paga pelos planos Business+ ou Enterprise+, segundo Ryan Gavin, diretor de marketing do Slack. A implementação deve estar completa até o fim de fevereiro; no celular, até 3 de março. Algumas funções, como marcar reuniões no calendário (e não só consultar a agenda), só chegam algumas semanas depois do lançamento. Geração de imagens ainda não está disponível, mas está no radar. Para a Salesforce, que teve um ano difícil na bolsa e enfrenta dúvidas sobre se a IA vai matar seus produtos ou fortalecê-los, a mensagem é clara: ter dezenas de milhões de pessoas conversando no Slack todo dia não é uma fraqueza — é uma vantagem imbatível. Como resumiu Haley Gault, executiva de contas da empresa: "Sinceramente, não consigo imaginar trabalhar em outra empresa sem acesso a ferramentas assim. É assim que eu trabalho agora".


