Historiadora de Harvard diz que o Vale do Silício lê ficção científica de forma equivocada — e isso prejudica a democracia
Jill Lepore critica Elon Musk e outros líderes de tecnologia por interpretarem mal obras de ficção e tentarem automatizar o governo

A historiadora Jill Lepore, professora da Universidade de Harvard, afirmou em entrevista ao podcast Equity da TechCrunch que os principais executivos do Vale do Silício são "maus leitores" de ficção científica — e que isso tem consequências diretas para a democracia. Segundo ela, figuras como Elon Musk interpretam de forma superficial obras clássicas do gênero e tentam transformar suas visões distorcidas em políticas públicas reais.
Lepore dedicou parte de sua pesquisa ao que chama de "governo por máquinas" (a ideia de que sistemas automatizados e algoritmos podem substituir decisões políticas humanas). Ela argumenta que muitos líderes de tecnologia veem a ficção científica como um manual de instruções, quando na verdade esses livros e filmes costumam ser alertas sobre os perigos de confiar demais em soluções tecnológicas para problemas sociais complexos.
O exemplo de Elon Musk é central na crítica da historiadora. Ela aponta que o bilionário, dono da Tesla, da SpaceX e hoje também influente em discussões sobre governança e regulação de IA (inteligência artificial), frequentemente cita obras de ficção científica para justificar suas visões — mas demonstra compreensão rasa das nuances e críticas presentes nessas histórias. Lepore não detalhou quais obras específicas foram mal interpretadas, mas o argumento é que essa leitura equivocada alimenta projetos que concentram poder em empresas privadas de tecnologia.
A entrevista faz parte de uma discussão mais ampla sobre como o setor de tecnologia molda instituições democráticas. Lepore defende que automatizar processos de governo — como decisões judiciais, aprovação de benefícios sociais ou até votações — pode parecer eficiente, mas na prática remove accountability (a responsabilização de pessoas por decisões) e torna mais difícil contestar erros ou injustiças. Para ela, a democracia depende justamente da lentidão, do debate e da possibilidade de discordar — elementos incompatíveis com a promessa de "otimização" que move as big techs (as grandes empresas de tecnologia).
A crítica de Lepore se soma a um coro crescente de vozes acadêmicas e da sociedade civil que alertam para o risco de deixar decisões políticas fundamentais nas mãos de sistemas opacos ou de executivos sem formação em ciências humanas. A historiadora não propõe banir a tecnologia do governo, mas sim exigir que quem a desenvolve e implementa entenda melhor história, filosofia política e os próprios livros que afirma ter lido.


